Sustentabilidade dos sistemas de saúde

Sustentabilidade dos sistemas de saúde


José Manuel Pereira
Técnico Superior de Radiologia
DEFI - Comunicação e Divulgações Científicas

Andrea Buschbeck
Técnica Superior 
DEFI - Comunicação e Divulgações Científicas




Os sistemas de saúde têm como principal função disponibilizar, atempadamente, cuidados às populações. Consomem um elevado número de recursos que são escassos face à procura sempre crescente. Os decisores devem planear o seu desenvolvimento sustentado não só no plano financeiro, mas também ao nível do impacto ambiental e social, implementando medidas que promovam o equilíbrio entre estes fatores.

De uma forma simplista pode-se definir o desenvolvimento sustentado como a capacidade para satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem as próprias necessidades. Isto pode ser aplicado ao nível de uma organização, de um país ou mesmo a todo o planeta.

Nas últimas décadas a comunidade confrontou-se com a ocorrência cada vez mais frequente de fenómenos naturais extremos, provocados pelas alterações climáticas. Estas são uma consequência do excesso de poluição, com maior ênfase na emissão de gases com efeito de estufa, e num rápido consumo de recursos não renováveis. A exposição à poluição e aos fenómenos climáticos extremos, influencia negativamente a saúde das populações.

As atividades relacionadas com o setor da saúde, apesar de importantes para a manutenção da saúde das populações, têm um forte impacto a nível ambiental, quer no consumo de recursos, quer na emissão de gases com efeito de estufa ou outro tipo de poluição (Cf. figura 1).


Figura 1 - Aspetos ambientais decorrentes da atividade hospitalar1


Nos Estados Unidos da América, estima-se que cerca de 8,5% das emissões de gases com efeito de estufa têm origem em atividades relacionadas com o setor da saúde2. Globalmente o setor de saúde, incluindo a indústria farmacêutica, é responsável pela emissão de cerca de 4,4% de gases com efeito de estufa3. Além disso, prevê-se que o mercado global de gestão de resíduos médicos cresça de cerca de 6,8 mil milhões de dólares em 2020 para 9 mil milhões de dólares em 20253.

Como instituições que consomem grandes quantidades de recursos, tais como energia, água e alimentos, além de produzirem uma quantidade significativa de resíduos, principalmente perigosos, os hospitais têm uma pegada ambiental considerável. Estudos indicam que, se fossem um país, os hospitais seriam o quinto maior emissor de CO2 do mundo, com cerca de 84% dessas emissões relacionadas ao fornecimento, transporte e descarte de bens, altamente dependentes de combustíveis fósseis4.

Em 2017, as entidades hospitalares do Serviço Nacional de Saúde português foram responsáveis por cerca de 15% do consumo de energia elétrica de todo o edificado da Administração Pública1.
 


Sistema de saúde verde

O setor da saúde necessita não só dar resposta aos problemas da população causados pelas alterações climáticas e pela poluição, como ele próprio se reorganizar minimizando o seu impacto no ambiente e na sociedade. Surge assim o conceito de sistema de saúde verde, que de uma forma holística é desenvolvido de acordo com um paradigma amigo do ambiente, ao mesmo tempo que se assume ele próprio como um motor de transformação da sociedade e dos seus hábitos.
Os sistemas de saúde verdes assentam em 10 pilares5:
  • Liderança – Empenhada em construir um modelo de desenvolvimento sustentável, que tenha como princípio orientador proporcionar cuidados de saúde de qualidade à população, a custo racional, minimizando a pegada ecológica e com valor social. Deverá disponibilizar os recursos necessários para o desenvolvimento e implementação de cuidados de saúde mais sustentáveis, o que significa também investimento na formação e na investigação.
  • Substituição de produtos químicos nocivos, por soluções mais amigas do ambiente – Sendo o setor da saúde um dos maiores consumidores de produtos químicos, muitos deles nocivos, a sua substituição por alternativas mais neutras, quando disponíveis, protege os profissionais, os doentes, a comunidade e o ambiente.
  • Reduzir, tratar e eliminar com segurança os resíduos – O setor da saúde origina milhões de toneladas de resíduos, muitos deles com propriedades tóxicas e infeciosas. O seu tratamento seletivo e apropriado reduzirá fortemente o impacto ambiental.
  • Eficiência energética e geração de energia limpa e renovável – A implementação de uma estratégia de eficiência energética nas unidades de saúde pode reduzir significativamente o seu consumo. Medidas como, apagar as luzes, computadores e equipamentos de ar condicionado, no final do dia de trabalho são fáceis de implementar e apresentam bons resultados. Para além disso, a instalação de painéis fotovoltaicos ou geradores eólicos contribuem para a diminuição da poluição ambiental.
  • Redução do consumo de água – A água é um bem escasso e as unidades de saúde são grandes consumidores. A implementação de medidas que promovam a redução do consumo, como instalação e redutores nas torneiras, diminuição da capacidade dos autoclismos ou colocação de autoclismos de duas descargas, torneiras com sensores, entre outras, mostraram ter impacto ambiental e financeiro.
  • Melhorar as estratégias de transporte para doentes e profissionais – No setor da saúde há uma necessidade constante da utilização de transporte, que geram a emissão de uma quantidade significativa de gases com efeito de estufa. A substituição das ambulâncias e outros veículos de transporte de doentes movidas a combustíveis fosseis, por veículos movidos a energias mais limpas reduzirá a emissão de gases nocivos. A implementação de uma rede eficaz de transportes públicos, movidos a energia renováveis, que permita que os doentes e profissionais cheguem rapidamente às unidades de saúde, permite a redução da utilização do transporte individual.
  • Alimentação – Otimizar os menus das refeições disponibilizados aos doentes e profissionais, melhorando o seu valor nutricional e diminuindo o desperdício alimentar. A aquisição de produtos na comunidade local, diminui a pegada ecológica do transporte, potencia o desenvolvimento de culturas de produtos considerados mais saudáveis e contribuirá para a sustentabilidade económica da região.
  • Diminuir a poluição e o desperdício associado aos medicamentos – A poluição causada pelos resíduos de medicamentos no ambiente influencia fortemente o desenvolvimento de resistência antimicrobiana. Para combater esta tendência são necessárias medidas que desincentivem o excesso de prescrição, a oferta embalagens com as unidades que são efetivamente prescritas e a retoma por parte da indústria de medicamentos não utilizados.
  • Edifícios verdes – Constituído por um grande parque edificado, o setor da saúde pode influenciar o setor da construção a adotar estratégias com menor impacto ambiental. A adoção de materiais mais duradouros, de fácil manutenção, menos nocivos e que promovam o isolamento térmico, a utilização de luz natural e a geração de energia renovável devem ser ponderados na fase de planeamento de uma nova estrutura ou da sua remodelação.
  • Alteração dos hábitos de compras – O setor da saúde é um importante consumidor de produtos, do qual dependem muitos fornecedores. A implementação de regras de aquisição que beneficiem produtos com menor pegada ecológica e fornecedores que, durante a cadeia de produção e transporte, cumpram as regras ambientais e de segurança podem impactar no desenvolvimento sustentado global.
 

Obstáculos e facilitadores à implementação de práticas sustentáveis

A implementação de práticas ambientalmente sustentáveis nos cuidados de saúde enfrenta algumas barreiras. Aboueid S et al2 identifica um conjunto de obstáculos que agrupa em quatro categorias: Individual, institucional, geográficas/infraestruturais e políticas.

Os obstáculos a nível individual incluem a falta de literacia sobre o desenvolvimento sustentável, a sobrecarga de trabalho que dificulta o planeamento de novas abordagens, a pressão por resultados imediatos e a resistência à mudança. A nível organizacional, muitas vezes o custo de reestruturação é elevado, o que leva a adiar ou abandonar a implementação de práticas sustentáveis, os protocolos institucionais são muitas vezes dificultadores e as equipas não estão preparadas para a mudança. As aquisições de produtos são realizadas, na maioria das vezes, tendo apenas em conta o preço, não havendo bonificações para os fornecedores que apresentem uma cadeia de produção/distribuição mais favorável. Não existe uma política de incentivos em função da adoção de práticas sustentadas, estando assentes apenas em resultados clínicos.

Em termos geográficos / infraestruturais, o desenvolvimento sustentável na área da saúde está dependente de infraestruturas públicas que não dependem da instituição de saúde, como por exemplo eficientes formas de tratar seletivamente os resíduos ou uma rede de transportes eficaz que promova o deslocamento das pessoas às instituições em transportes públicos.

Ao nível governamental são decididos os apoios às políticas de desenvolvimento sustentável. Para as implementar é necessário financiamento inicial e uma estreita monitorização do seu desempenho. A falta de recursos ou uma monitorização deficiente da implementação, são obstáculos à adoção de práticas ambientalmente sustentáveis. As instituições devem ser premiadas em função não apenas dos resultados, mas das práticas que adotam para os obter.
 


Vantagens para as instituições que adotam práticas sustentáveis

As instituições que optam por um modelo assente em práticas sustentáveis, apresentam maior eficiência operacional, menor desperdício de recursos e melhoria da relação custo-benefício. Os seus profissionais sentem que desempenham um papel importante, não só ao nível dos cuidados prestados, mas também no desenvolvimento harmonioso do ecossistema em que estão inseridos. Apesar do foco primário de todos os profissionais de saúde ser a prestação de cuidados de saúde aumenta a consciencialização da importância da sustentabilidade ambiental e da redução da pegada ecológica associada a esses cuidados.

Para que sejam bem-sucedidas, as práticas sustentáveis terão de ser fáceis de implementar, não consumir muito tempo aos profissionais, estar em linha com as guidelines clínicas e trazer benefícios claros para o ambiente, ao mesmo tempo, que apresentam excelentes outcomes clínicos e respeitem a individualidade de cada doente2.
 


Exemplos de práticas sustentáveis no Santo António

No sentido de contribuir com os objetivos fixados na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, a nossa instituição compromete-se entre outros dos objetivos, a assumir o ODS 12 para “Fomentar a contratação pública sustentável, bem como o uso eficiente de recursos naturais. Evitar o desperdício (nomeadamente de bens alimentares). Reduzir a produção de resíduos, através da prevenção, reciclagem e reutilização possível e adequada, e efetuar uma gestão ambientalmente correta dos mesmos”6.

São vários os serviços e departamentos que têm vindo a alterar algumas das suas práticas, em função de uma maior sustentabilidade. Por vezes, são pequenas medidas que no seu conjunto têm grande relevância. Outras vezes, são medidas mais impactantes e reconhecidas.

Um dos exemplo é o projeto ROSE, que visa a redução de resíduos em ambiente de bloco operatório e o seu reaproveitamento, e que foi distinguido com o prémio BI Award for Innovation in Healthcare. Também o Serviço de Ensino, Formação e Desenvolvimento Humano – DEFI, reduziu substancialmente o uso de papel e outros materiais, eliminando a emissão de certificados, a impressão de protocolos de entrega e o uso de largas centenas de envelopes de correio interno. No último trimestre deste ano, pretende-se eliminar igualmente os boletins de inscrição para as atividades formativas que promove, tornando a inscrição mais fácil e rápida através de uma plataforma digital da formação, que estará disponível para toda a comunidade da ULS Santo António. A partilha de experiência promove a mudança de atitudes e o crescimento de todos. Escreva um pequeno texto sobre soluções sustentáveis implementadas no seu serviço/departamento, para que as possamos divulgar em próximas edições da newsletter.
 

Bibliografia

  1. Administração Central do Sistema de Saúde. Guia Para Hospitais Sustentáveis-G 07/2022 Ficha Técnica. https://www.acss.min-saude.pt/wp-content/uploads/2016/10/G07_2022.pdf.
  2. Aboueid S, Beyene M, Nur T. Barriers and enablers to implementing environmentally sustainable practices in healthcare: A scoping review and proposed roadmap. Healthc Manage Forum. 2023;36(6):405-413.
    doi:10.1177/08404704231183601.
  3. Berniak-Wo?ny J, Rataj M. Towards Green and Sustainable Healthcare: A Literature Review and Research Agenda for Green Leadership in the Healthcare Sector. Int J Environ Res Public Health. 2023;20(2). doi:10.3390/ijerph20020908.
  4. AMADO GOMES C, MONGE C, ANTUNES AP, OLIVEIRA H, coords. Sustentabilidade e eficiência no sector hospitalar – Quão verdes podem ser os hospitais [Internet]. Lisboa: ICJP-CIDP; 2022. [citado 2024 ago 12]. Disponível em: https://www.icjp.pt/sites/default/s/publicacoes/s/e-book_sustentabilidade_e_eficiencia_no_setor_hospitalar_icjp2022.pdf5.
  5. Fadda J. Green Healthcare System: Main Features in Supporting Sustainability of Healthcare System—A Review. In: Sayigh Ali, ed. Green Buildings and Renewable Energy. Springer Nature; 2020:113-128.
  6. ULS de Santo António. Política de Sustentabilidade. [Internet]. Porto: 2024 jun [citado 2024 ago 12]. 7-8 p. Procedimento Geral No.: CADM.GER.032. Disponível em:
    https://www.chporto.pt/documentos/Instituicao/Responsabilidade_Social/Politica_de_Sustentabilidade/
    Politica_de_Sustentabilidade_Santo_Antonio.pdf