Uma Boa Prática de Literacia em Saúde - WalkingPAD: “O seu futuro é o que caminha hoje”

Ivone Silva
Assistente Graduada de Angiologia e Cirurgia Vascular
Diretora dos Blocos Operatórios de Cirurgia Convencional
Professora Associada Convidada do ICBAS
A doença arterial periférica (DAP) é uma doença cardiovascular comum que afeta 27 milhões de pessoas na Europa e nos Estados Unidos da América (EUA). Os doentes com DAP apresentam habitualmente, como primeiro sintoma, um grave comprometimento da capacidade funcional, nomeadamente na distância percorrida devido à isquemia muscular definida como claudicação intermitente (CI). O desconforto relacionado à CI contribui para um estilo de vida sedentário, diminuindo o nível de aptidão física, potencializando os fatores de risco cardiovascular, aumentando as taxas de perda de mobilidade, levando à deterioração da doença. O declínio funcional significativo em doentes com DAP está associado à gravidade da CI, que, por sua vez, está correlacionada com maior morbidade, redução da qualidade de vida (QV) e aumento da mortalidade. Em última análise, a DAP pode levar à amputação de membro inferior. Além da medicação oral, o exercício físico tem sido recomendado como terapia de primeira linha para doentes com DAP e CI melhorando a capacidade de deambulação, o estado funcional e a QV relacionada à saúde. No entanto, as taxas de adesão à recomendação de exercício físico são baixas. Um dos principais fatores que contribui para a não adesão ao tratamento da Doença Arterial Periférica (DAP) reside na falta de conhecimento e consciência sobre a gravidade e severidade da doença. O primeiro estudo que se focou em avaliar a Consciência sobre a DAP – (“The National PAD Public Awareness Survery”) – foi conduzido nos Estados Unidos EUA em 2006 e revelou que 75% dos entrevistados desconheciam a doença, os outros 25 % eram detentores de um mínimo de informações corretas, e apenas 14 % sabiam que a doença pode levar à morte.
Recentemente, uma revisão sistemática avaliou o conhecimento e a consciência da DAP não só no âmbito do público geral (incluindo pacientes com DAP), mas também em profissionais de saúde, como estudantes de medicina e médicos internos de múltiplas especialidades. Os resultados desta revisão enfatizam a falta de conhecimento e compreensão sobre a DAP (consciência da doença) em todos os grupos estudados. No entanto, o nível de conhecimento aumenta quando os doentes recebem informação individualizada, embora apenas um pequeno número de doentes receba informação sobre a DAP por parte do seu médico especialista ou não especialista.
Embora o conhecimento, por si só, não seja suficiente para promover a mudança comportamental, ele é crucial para aumentar a literacia em saúde, a tomada de decisão informada e promover a autogestão da doença. Um nível inadequado de literacia em saúde pode ter implicações significativas nos resultados em saúde, na utilização dos serviços de saúde e, consequentemente, nos gastos em saúde. Ainda, e não menos importante, a literacia em saúde tem um impacto significativo na qualidade de vida e bem-estar dos indivíduos. A verdade é que o modelo biomédico tem vindo a ser gradualmente substituído por um modelo colaborativo, associado a um melhor estado de saúde, a uma redução dos custos dos cuidados de saúde, a um aumento do conhecimento em saúde, a uma menor utilização dos serviços de saúde, e a hospitalizações mais curtas – indicadores estes provenientes da aquisição de novos conhecimentos, de atitudes mais positivas, de uma maior autoeficácia e de comportamentos de saúde positivos associados a uma maior literacia em saúde. Já o oposto, um grau de literacia considerado problemático ou insuficiente, está associado a uma maior incidência e gravidade das doenças, a taxas elevadas de hospitalização e a um aumento da morbi-mortalidade.
Neste sentido, a literacia em saúde é um fator facilitador para promover o autocuidado, a gestão e a compreensão do tratamento no momento de admissão. No entanto, a forma como a educação para a saúde é feita, é determinante – “one size fits all” – não é eficaz. A informação que é fornecida deve ser personalizada e adequada à condição física e psicológica do doente
O PROJECTO WalkingPAD
É mandatório o desenvolvimento e implementação de estratégias preventivas primárias e secundárias e de promoção de saúde, abrangendo doentes com risco cardiovascular que proporcionam ao doente mais-valias, na medida em que são indiscutíveis. Em Portugal a percentagem dos doentes que aderem a um programa de exercício físico é ainda muito baixa.
Os doentes com DAP doença arterial periférica, em número ainda muito reduzido, podem participar em programas de reabilitação cardíaca. No entanto, estes não são desenhados para doentes com DAP, são muito caros, envolvem recursos humanos e técnicos que são ados, obrigam a deslocações por parte dos doentes, a abstenção laboral e a gastos financeiros, que não são replicáveis na vida quotidiana do doente. Para além disso, não podemos ignorar que a maior parte destes doentes são sedentários e o nosso objetivo é estimulá-los para a prática de exercício físico, o que lhes vai provocar dor. O nosso papel tem de ser o de desmistificar e tornar o doente seguro, informado, com capacidade para a autogestão da sua condição, capacitando-o para a adesão ao exercício a longo prazo e com impacto positivo na sua capacidade funcional, de ganhos em saúde e, claro, na melhoria da sua qualidade de vida.
O programa walkingPAD, desenhado por uma equipa multidisciplinar, é um programa de exercício físico supervisionado na área de residência do doente com DAP, com recurso a uma app, aliado a um programa educacional e motivacional.
Os programas de exercício físico realizados na área de residência (Home Based Exercise Therapy- – HBET) são programas estruturados que ocorrem no ambiente familiar do doente e não num ambiente clínico, são personalizados e supervisionados continuamente por profissionais de saúde que prescrevem um regime de exercícios semelhante ao dos programas realizados em ambiente hospitalar. A prescrição do exercício físico é feita pelo profissional de saúde tendo em conta os seguintes parâmetros: tipo de exercício: (caminhadas); intensidade: (leve a moderada); frequência: (três vezes por semana); distância: (baseada na medida do “Teste 6 -minutes”), sendo por isso mais atrativos, personalizados, eficazes, de muito baixo custo e risco, quando comparado com um programa de reabilitação realizado em ambiente hospitalar.
O WalkingPAD é constituído por três interfaces, uma física, uma psicológica e uma digital (plataforma web e uma app para telemóvel), o que permite prescrever um programa de exercício físico na área de residência do doente (através da plataforma) e monitorizar, supervisionar e motivar (a app funciona como uma assistente virtual) os doentes durante a realização do programa.
Assim, o WalkingPAD apresenta como vantagem major, a comodidade para o doente, permitindo a autogestão da sua caminhada, respeitando o horário laboral, reduzindo o absentismo, reduzindo os custos associados à deslocação para ambiente hospitalar e, consequentemente, a adesão ao programa de exercício físico, porque a maior parte dos obstáculos e barreiras identificados pelos doentes para participar nestes programas, são colmatados pelo próprio programa WalkingPAD.
O ecossistema tecnológico WalkingPAD está ancorado numa plataforma web baseada numa arquitetura de microserviços, que disponibiliza ferramentas para a prescrição e supervisão do exercício físico terapêutico.
A prescrição contempla também o número expectável de caminhadas semanais, bem como um e mínimo de tempo de caminhada. Quando não é realizada uma caminhada de tempo igual ou superior ao pré-definido, é considerado que o exercício físico é um passeio, não sendo contabilizado para a persecução da prescrição semanal. Ao realizar uma caminhada, o utilizador dispõe de um mapa do percurso percorrido. Ao ser detetada uma paragem, o utilizador é automaticamente inquirido se o motivo da paragem é dor. A interação com o utilizador é estendida ao momento em que termina o tempo recomendado de caminhada, sendo apresentada uma caixa de diálogo sobre a intenção do utilizador terminar a caminhada ou prosseguir.
A todos os doentes foi feita individualmente uma intervenção educacional, com recurso a um booklet, com o objetivo de aumentar o conhecimento sobre as causas da doença, fatores de risco, sintomas, complicações e comportamentos de gestão da doença. Realizaram-se dois encontros de doentes para reforçar esta sessão educacional, permitir a troca de experiências e reforçar também a motivação para adesão ao programa de exercício. Todos os doentes receberam igualmente uma intervenção de mudança comportamental de 6 horas no total, ao longo de 6 meses, para aumentar a adesão à prescrição realizada presencialmente e através de contactos por telemóvel.
Este projeto WalkingPAD demonstrou que um programa de exercício físico prescrito para ser realizado num ambiente familiar e não clínico, com supervisão remota, e intervenção de mudança comportamental – desenvolvida de forma presencial e/ ou remota –, é uma opção eficaz, prática, de baixo custo e com elevada adesão e satisfação por parte dos doentes. Os nossos resultados demonstram que o programa WalkingPad, foi capaz de aumentar, e exceder em muito, as diferenças clinicamente esperadas, e encontradas noutros estudos, nas distâncias caminhadas.
No entanto, a aplicação WalkingPad, por si, não é eficaz em promover estas melhorias, reforçando a necessidade de interação direta com o doente, a aposta na literacia do doente e em programas motivacionais facilmente aplicáveis.
CAMPANHA - “O SEU FUTURO É O QUE CAMINHA HOJE!”
No âmbito deste projeto construímos a campanha de promoção da literacia: “O seu futuro é o que caminha hoje!”, com o propósito de aumentar os conhecimentos sobre a Doença Arterial Periférica enquanto doença crónica, não só os doentes integrados no projeto WalkingPAD, mas a todos os utentes que frequentam o nosso hospital, e sensibilizar para a necessidade de controlar os fatores de risco para prevenir e/ou reduzir o risco de complicações, aumentando o controlo comportamental percebido, motivando e promovendo a intenção de iniciar a prática de exercício físico (caminhadas) com recurso a:
- booklet educacional
- 12 vídeos de divulgação sobre vários aspetos da doença incluindo um para cuidadores
- Estes vídeos estão disponíveis na app WalKingPAD, nas salas de consulta externa e na app do nosso hospital e é apresentado aos doentes com DAP internados no nosso Serviço
- Encontros de doentes com doença arterial periférica

Figura 1 – Abordagem dos Processos de Ação em Saúde, adaptada à Campanha Educativa “O seu futuro é o que caminha hoje”!”




