Ensaios clínicos: a importância da participação

Pedro Barata
Vice-Presidente da CEIC
Médico na Clínica de Genética e Patologia
Pedro Barata é Mestre em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Doutor em Ciências Farmacêuticas pela Faculdade de Farmácia da mesma universidade, onde também concluiu o Mestrado em Tecnologia Farmacêutica e a Licenciatura em Ciências Farmacêuticas. Completou formação pós-graduada em Clinical Research na Harvard Medical School.
Atualmente, exerce funções como Vice-Presidente da Comissão de Ética para a Investigação Clínica (CEIC) e integra o grupo europeu MedEthics EU. É Professor Associado da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa e Senior Invited Lecturer no King's College London. Desenvolve atividade de investigação no RISE-Health e integra a Unidade de Apoio à Direção do Centro Académico Clínico ICBAS/Santo António.
É médico na Clínica de Genética e Patologia da Unidade Local de Saúde de Santo António e membro do Conselho Nacional de Pós-Graduação da Ordem dos Médicos.
Na arquitetura do progresso médico, os ensaios clínicos representam uma das suas colunas mais silenciosas, mas mais essenciais. Os ensaios clínicos são estudos conduzidos no Homem destinados a descobrir ou verificar os efeitos de um ou mais medicamentos experimentais. São um espaço onde a observação se transforma em evidência, e onde a esperança individual se entrelaça com o compromisso coletivo. Permitem, com método, ética e rigor, testar novas abordagens terapêuticas, compreender a evolução das doenças e melhorar, de forma concreta, os cuidados prestados às gerações presentes e futuras.
Participar num ensaio clínico não é apenas aceitar ser incluído num estudo ou protocolo — é escolher fazer parte do processo que constrói o conhecimento. O doente que decide integrar um estudo não pode ser reduzido a número nem a variável: tem de ser reconhecido como sujeito ativo, parceiro no esforço de descoberta. Esse gesto, aparentemente simples, encerra uma profunda nobreza: ao aceitar o risco ponderado da incerteza, permite que outros, amanhã, possam beneficiar de uma maior certeza terapêutica.
É essencial, contudo, que esta decisão seja tomada com informação, esclarecimento, total liberdade e respeito. Os ensaios clínicos em Portugal, como em qualquer país com maturidade científica e civilizacional, são submetidos ao escrutínio de comissões de ética e regulamentares, regidos por protocolos estritos e construídos sobre princípios invioláveis da bioética. O participante mantém, em todo o momento, o direito de sair, de recusar, de perguntar. A ciência que avança sem ética não é ciência — como aprendemos tristemente em épocas mais sombrias.
Além do benefício potencial direto — o acesso a terapias inovadoras, muitas vezes indisponíveis fora do contexto experimental — existe uma outra dimensão, menos visível mas não menos valiosa. Participar num ensaio é também um ato de cidadania esclarecida. É, no fundo, colocar uma pedra no edifício comum do saber, como quem, no silêncio de um gesto anónimo, contribui para a elevação de algo que o transcende.
É necessário desfazer mas respeitar os receios, tratar os participantes como pessoas chave deste processo que eles são, pois na verdade, são os ensaios clinicos um lugar onde a medicina se testa, se corrige e se renova. São um espaço em que muitas perguntas ganham corpo, e onde as respostas têm de ser procuradas com rigor, respeito, disciplina e vigilância. Não se trata de prometer milagres, mas de oferecer oportunidades, às vezes não aos participantes em si, mas à sociedade.
Numa era em que tanto se exige da ciência, não se pode esperar resultados sem investimento, ou progresso sem participação dos cidadãos. A investigação clínica move a medicina em direção ao futuro, mas são os participantes o principal motor desse processo.. No gesto discreto, mas que muito deve ser valorizado, de um doente que aceita contribuir reside, por vezes, o gerar de uma nova hipótese,de um novo tratamento, de uma nova esperança.
A participação voluntária de um doente num ensaio clínico é, em si mesma, um ato de rara nobreza. Envolve a disposição de confiar na ciência num momento de fragilidade pessoal, contribuindo com o próprio corpo e experiência para um bem que ultrapassa o interesse individual. Essa entrega, silenciosa e consciente, tem de ser tratada com o mais profundo respeito — ético, institucional e humano.
É por isso que todas as barreiras desnecessárias à participação devem ser revistas e, sempre que possível, removidas. Importa evitar obstáculos administrativos, demoras regulamentares injustificadas, desigualdade no acesso à informação ou exclusões injustificadas, facilitando e promovendo a participação dos doentes nestes estudos fundamentais para a progressão da ciência. A bem de todos.




