Segurança no uso dos medicamentos

Patrocínia Maria Pinto de Castro e Rocha
Diretora dos Serviços Farmacêuticos da ULSSA
Mestrado Integrado em Ciências farmacêuticas pela FFUL; Especialista em Farmácia Hospitalar; Assessor Sénior da carreira farmacêutica; Diretora dos Serviços Farmacêuticos da Unidade Local de Saúde de Santo António; Coordenadora da Residência Farmacêutica na ULSSA. Integra várias Comissões técnicas nomeadamente a Comissão de Farmácia e Terapêutica da ULSSA e a Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica do Infarmed. Integra a comissão Executiva, da CATS – Comissão de Avaliação das Tecnologias da Saúde e da Comissão Nacional de Normalização da Hormona de Crescimento. Várias Publicações e Comunicações em Congressos Nacionais e Internacionais e participação em Comissões científicas. Pós-graduação pela Universidade Católica em VIH/Sida; Pós-Graduação - PADIS – Programa de Alta Direção de Instituições de Saúde. Pós-Graduação em Liderança e Negociação em Saúde – Universidade Nova de Lisboa – Economics and Business School.
A segurança do uso dos medicamentos é um desafio global para a segurança dos doentes.
O terceiro Desafio Global para a Segurança do Doente dá continuidade ao compromisso da Organização Mundial da Saúde (OMS) em reduzir os riscos e danos evitáveis associados aos cuidados de saúde em todo o mundo. Este desafio tinha como meta global, reduzir em 50%, num período de cinco anos, o nível de danos graves evitáveis, relacionados com medicamentos, a nível mundial (1).
Em algum momento da sua vida, todas as pessoas, em qualquer parte do mundo, tomarão medicamentos para prevenir ou tratar doenças. No entanto, os medicamentos podem, por vezes, quando são utilizados de forma incorreta, monitorizados de modo insuficiente, ou em consequência de erros, acidentes ou falhas de comunicação, resultar em dano grave, incapacidade permanente e até em morte (1).
Partindo do pressuposto que todos os erros de medicação são evitáveis, a monitorização do circuito do medicamento, desde a seleção, armazenamento, prescrição, distribuição/dispensa, administração e farmacovigilância, é fundamental para garantir o seu uso seguro e eficaz.
Sistemas frágeis e/ou fatores humanos, podem afetar uma ou mais das etapas atrás referidas. A intervenção dos profissionais de saúde, nomeadamente farmacêuticos, pode contribuir significativamente para a redução dos erros de medicação, aumentar a adesão e evitar desperdícios ou redundâncias.
O uso responsável do medicamento pretende garantir que a sua prescrição/uso ocorre apenas quando necessário; que a sua escolha será apropriada e feita com base na mais recente evidência científica e/ou clínica, de forma a ser o mais eficaz possível e o menos suscetível de causar dano; salvaguarda as preferências do doente e o melhor uso dos recursos disponíveis; há um acesso e uma disponibilização atempada com qualidade, e que estes são administrados e adequadamente monitorizados quanto à sua eficácia e segurança; é utilizada uma abordagem colaborativa multidisciplinar, abrangendo os cidadãos, agregado familiar e cuidadores, além dos profissionais de saúde que auxiliam os doentes sob os seus cuidados (2).
Os doentes e o público nem sempre possuem literacia em medicação e são muitas vezes tratados como recetores passivos de medicamentos, sem a capacitação e informação suficiente para garantir a adesão e o uso correto da medicação.
Os medicamentos são, por vezes, complexos, podem apresentar nomes e embalagens semelhantes, difíceis de manusear, e, falta-lhes, ocasionalmente, informação suficiente ou claramente compreensível e adequada para evitar confusão ou manuseamento incorreto.
A semelhança visual ou fonética entre nomes de medicamentos (look-alike, sound-alike medicines), bem como rótulos e embalagens desadequados, constituem fontes frequentes de erro e de danos associados à medicação, que podem e devem ser abordadas e corrigidas.
Na ULSSA e nos Serviços Farmacêuticos foram implementadas várias estratégias para aumentar a segurança e diminuir os erros associados a trocas por apresentação, rotulagem ou aspeto semelhante (Figura 1), segurança do medicamento citotóxico na unidade de preparação de quimioterapia, com a criação e leitura de QR codes (Figura 2) que no futuro podem permitir a rastreabilidade ao doente no momento da administração, e literacia no âmbito do uso do medicamento, com informação escrita para doentes em regime ambulatório (Figura 3).
Figura 1

Figura 2

Figura 3
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Figura 1

Figura 2

Figura 3
O impacto dos erros de medicação é maior em determinadas circunstâncias clínicas, como em doentes internados em hospitais, em comparação com os cuidados ambulatórios. Isto deve-se frequentemente à gravidade ou complexidade das situações clínicas nestes contextos e à utilização de regimes medicamentosos mais complexos.
A intervenção farmacêutica é particularmente importante nas situações de alto risco (pediatria, geriatria e comprometimento hepático e renal), no uso de múltiplos medicamentos (polifarmácia) e na transição de cuidados (mudanças entre serviços clínicos, de cuidados hospitalares para cuidados primários, para cuidados paliativos ou para o domicílio).
A transição de cuidados aumenta a probabilidade de erros de comunicação, que podem resultar em erros de medicação, graves. Os doentes estão particularmente em risco durante estas transições, sendo estes momentos altamente críticos para a segurança da medicação.
O processo de reconciliação da medicação contribui para a garantia da segurança de gestão da medicação e implica uma responsabilidade partilhada (3).
O processo de reconciliação da medicação é constituído por: Recolher a melhor história possível da medicação do doente, salvaguardando o seu consentimento informado; comparar a melhor história possível da medicação e a medicação prescrita na transição de cuidados; avaliar e corrigir as discrepâncias identificadas; avaliar e corrigir as discrepâncias identificadas; garantir que a reconciliação da medicação é realizada nos momentos de transição de cuidados, nomeadamente: Em contexto hospitalar, na admissão e na alta, num prazo máximo de 24 horas após a transição de cuidados; Em contexto extra-hospitalar, garantir a concretização da reconciliação da medicação no menor período possível, no prazo máximo de uma semana (3).
O processo deve ser registado e comunicado a todos os profissionais de saúde envolvidos no plano individual de cuidados do doente, evidenciando todas as alterações ocorridas na medicação e respetiva data (3).
O processo de reconciliação da medicação é constituído por: Recolher a melhor história possível da medicação do doente, salvaguardando o seu consentimento informado; comparar a melhor história possível da medicação e a medicação prescrita na transição de cuidados; avaliar e corrigir as discrepâncias identificadas; avaliar e corrigir as discrepâncias identificadas; garantir que a reconciliação da medicação é realizada nos momentos de transição de cuidados, nomeadamente: Em contexto hospitalar, na admissão e na alta, num prazo máximo de 24 horas após a transição de cuidados; Em contexto extra-hospitalar, garantir a concretização da reconciliação da medicação no menor período possível, no prazo máximo de uma semana (3).
O processo deve ser registado e comunicado a todos os profissionais de saúde envolvidos no plano individual de cuidados do doente, evidenciando todas as alterações ocorridas na medicação e respetiva data (3).
Os profissionais de saúde envolvidos no processo de reconciliação da medicação devem adotar medidas para capacitar o doente/família/cuidador, no processo de reconciliação da medicação (3).
Desde outubro de 2023 os farmacêuticos procedem à reconciliação da medicação que incide no doente cirúrgico, nomeadamente no serviço de cirurgia vascular.
Esse processo representa uma mais valia para profissionais e doentes envolvidos, e garante a integração do farmacêutico na equipa multidisciplinar de saúde, com ganhos efetivos na qualidade assistencial e segurança dos doentes.
Apresentam-se abaixo os dados da atividade de Reconciliação da Medicação, com intervenção farmacêutica diária, num serviço de cirurgia.
Dados Reconciliação da Medicação (RM), realizada por farmacêuticos, num serviço cirúrgico (outubro de 2023 a outubro de 2025)
Realizadas 1.188 reconciliações da medicação;
Analisadas 17.295 substâncias ativas (SA)
Número médio de SA por doente - 11
Consultadas 3.816 fontes de informação para construção da BPMH (significa Best Possible Medication History (ou "Melhor Histórico de Medicamentos Possível").
Foram utilizados dois métodos de RM:
- Retroativo (a BPMH é obtida após a primeira prescrição médica)
Resultados:
Sem discrepâncias – 1.685 = 25,1%
Discrepâncias Intencionais, justificadas – 3.369 = 50,2%
Discrepâncias Intencionais, não justificadas - 32 = 0,5%
Discrepâncias Não intencionais – 1623 = 24,2%

- Proativo (a primeira prescrição médica é feita com base na BPMH)
Resultados:
Sem discrepâncias – 5.189 = 49,0%
Discrepâncias Intencionais, justificadas - 5262 = 49,7%
Discrepâncias Intencionais, não justificadas - 22 = 0,2%
Discrepâncias Não intencionais – 113 = 1,1%

Os dados recolhidos permitem observar que, quando a primeira prescrição médica é feita a partir da BPMH, em estreita colaboração com o farmacêutico, o número de discrepância não intencionais diminui drasticamente.
O processo da RM deve ser alargado a todas as áreas clínicas, nomeadamente serviço de urgência, porta de entrada para o contexto hospitalar. Os SF, a CFT, a equipa do CdM e o Gabinete de Governação Clínica estão a desenvolver procedimentos que envolvem médicos, farmacêuticos e enfermeiros para aplicação cabal da NORMA da DGS, no âmbito da RM com o registo informático de todas as fases do procedimento.
Destacar ainda a importância da deteção e notificação dos eventos adversos relacionados com a terapêutica medicamentosa, assim como a importância dos programas de farmacovigilância ativa para medicamentos inovadores e de alto risco, bem como a avaliação de potenciais interações medicamentosas e interações medicamento/alimento, ou outras que podem contribuir para problemas relacionados com os medicamentos.
A consulta farmacêutica e o seu registo no processo clinico eletrónico contribuem para minimização de erros de medicação e para a adesão dos doentes ao esquema terapêutico proposto, aumentando a segurança no uso dos medicamentos.
Em conclusão, a segurança no uso dos medicamentos garante que os medicamentos são prescritos, dispensados e administrados de forma adequada, para que se obtenham benefícios diretos e mensuráveis, com eventos adversos mínimos. Envolver doentes e profissionais, com o apoio de tecnologias baseadas em inteligência artificial, são um desafio e uma oportunidade que devemos perseguir.
O uso responsável do medicamento é responsabilidade de todos.
Bibliografia:
1 –Medication Without Harm, OMS
2 - RECOMENDAÇÕES DA ORDEM DOS FARMACÊUTICOS USO RESPONSÁVEL DO MEDICAMENTO
3 – NORMA da DGS: 18/2016; Reconciliação da Medicação; 01/03/2024
2 - RECOMENDAÇÕES DA ORDEM DOS FARMACÊUTICOS USO RESPONSÁVEL DO MEDICAMENTO
3 – NORMA da DGS: 18/2016; Reconciliação da Medicação; 01/03/2024






