Natal, acolhimento e multiculturalidade

Carmen Carvalho
Diretora do Serviço de Neonatologia CMIN-ULSSA
Doutorada em Bioética. Professora Associada Convidada do ICBAS-UP
Membro da Comissão de Ética Santo António/ICBAS
Elemento da Equipa Intra-Hospitalar de Suporte de Cuidados Paliativos Pediátricos
Tradicionalmente, o Natal é um tempo de encontro e de acolhimento. Um tempo em que as portas se abrem, as diferenças se atenuam e o essencial — o cuidado e a presença — ganha, de novo, um novo significado. Em ambiente hospitalar, este espírito prolonga-se para além da época festiva, refletindo-se em gestos diários de reconhecimento do Outro, feitos com atenção, respeito e humanidade.
A multiculturalidade faz hoje parte do quotidiano dos nossos serviços de saúde. Traz consigo desafios à comunicação, à empatia e à prática clínica, mas também oportunidades de aprendizagem e de crescimento mútuo. Acolher alguém de outra cultura vai além de traduzir palavras: implica compreender gestos, valores e formas de expressar dor, esperança ou confiança que podem diferir dos nossos referenciais.
O verdadeiro acolhimento exige disponibilidade interior — escutar antes de interpretar, compreender antes de agir — e deverá traduzir-se em cuidados que respeitem a singularidade de cada pessoa. Reconhecer esta diversidade é essencial, mas é na interculturalidade — no diálogo e na compreensão mútua entre culturas — que se constroem relações terapêuticas mais sólidas e eficazes. A transculturalidade, por sua vez, permite integrar saberes e práticas de diferentes origens, tornando os cuidados mais inclusivos e sensíveis às necessidades de cada pessoa.
O acolhimento culturalmente sensível exige atenção, escuta ativa e abertura às particularidades de cada história de vida. Permite reconhecer medos e expectativas que raramente transparecem nos registos clínicos, transformando o encontro clínico num espaço de diálogo, confiança e partilha. Ouvir o Outro é reconhecer a sua dignidade e reforçar uma prática clínica mais humana e eticamente consciente. A literacia cultural torna-se, assim, um elemento fundamental para adaptar cuidados, respeitar crenças diversas e sustentar o compromisso ético de cuidar com sensibilidade e integridade.
Mesmo em ambientes de grande exigência, o acolhimento lembra-nos que o cuidado começa muito antes de qualquer ato técnico: nasce da presença, da escuta e do reconhecimento mútuo.
Cuidar é reconhecer que cada pessoa traz uma narrativa que importa ser ouvida, compreendida e integrada no plano de cuidados. Quando assim acontece, o encontro entre culturas deixa de ser visto como obstáculo e transforma-se em oportunidades de crescimento — um exercício contínuo de empatia, reflexão e responsabilidade ética.
Este período do ano interpela-nos a integrar humanidade e atenção em cada gesto, reforçando uma cultura de verdadeiro acolhimento nos serviços de saúde.
“As grandes experiências humanas estão do lado do inefável, do intraduzível, do sem nome, do silêncio.
A rotina não basta ao coração do homem. O grande desafio é, em cada dia, voltar a olhar tudo pela primeira vez, deslumbrando-se com a surpresa dos dias”
José Tolentino de Mendonça




