
Joana Damásio
Médica do Serviço de Neurologia
Sintomas cerebelares e não cerebelares nas ataxias hereditárias
As ataxias cerebelosas hereditárias (ACH) são um grupo de doenças neurológicas caracterizadas por alterações na coordenação dos movimentos voluntários e desequilíbrio. Podem surgir por atingimento do cerebelo, vias cerebelosas ou proprioceção.
Este projeto, conduzido durante 5 anos, caracterizou sistematicamente mais de 250 doentes com ACH, estabelecendo uma coorte prospetiva com avaliações anuais. Mais de 50 causas genéticas foram identificadas, algumas pela primeira vez associadas a este fenótipo, reforçando a variabilidade genética. As mais frequentes foram as expansões de repeats (doença de Machado Joseph nas autossómicas dominantes (AD), ataxia de Friedreich e ATX-RFC1 nas autossómicas recessivas (AR)), ainda não detetadas pelas técnicas de sequenciação de nova geração, reforçando a necessidade de protocolos em que o estudo de expansões surja como primeira linha.
Apesar das apresentações cerebelosas terem sido as mais frequentes, estabelecemos que um início não cerebeloso ocorreu num número significativo, particularmente nas ACH-AR. Contribuímos para ampliar a perspetiva clássica das idades de início; embora as ACH-AR sejam associadas a início precoce, aproximadamente 40% tiveram início na idade adulta; nas ACH-AD, classicamente com início tardio, o início precoce ocorreu em mais de um terço. Fenótipos cerebelosos puros foram raros, com sintomas adicionais a surgirem com a progressão, reforçando o envolvimento de estruturas extra-cerebelosas nestas doenças. A presença de sintomas não cerebelosos associou-se a maior gravidade e incapacidade.
Procuramos com este projeto constituir grupos homogéneos para futuros ensaios clínicos e aumentar a consciencialização sobre as diversas manifestações das ACH, sendo útil para a prática clínica de neurologistas, neurologistas pediátricos e geneticistas.
Pode consultar a versão integral deste trabalho em https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/163200
Joana Damásio, assistente hospitalar graduada em Neurologia na ULS de Santo António e gestora da consulta externa de Neurologia, dedica-se às doenças do movimento, em particular às ataxias cerebelosas hereditárias. É presidente-eleita da Sociedade Portuguesa das Doenças do Movimento, integra o painel científico em neurogenética da European Academy of Neurology, assim como o Comité dos Estatutos e o Conselho Editorial do Website da Movement Diss Society. Faz parte do grupo de investigação Genetic Epidemiology and Epigenetics, da Unidade Multidisciplinar de Investigação em Biomedicina do ICBAS-UP onde colabora em vários projetos de investigação em ataxias cerebelosas. Doutorou-se em Ciências Médicas no ICBAS-UP em outubro de 2024 sob a orientação do Professor Doutor Jorge Sequeiros e Professor Doutor José Barros.




