A Importância das Competências Clínicas de Comunicação nos Resultados em Saúde

A Importância das Competências Clínicas de Comunicação nos Resultados em Saúde 


Dilermando Sobral
Assistente Graduado de Medicina Geral e Familiar - USF Ramalde
Mestrado em Comunicação Clínica
Assistente Convidado da FMUP - Departamento de Neurociências Clínicas e Saúde Mental


A consulta constitui o cerne do trabalho de qualquer médico ou outro profissional de saúde (enfermeiro, psicólogo, nutricionista, …), sendo o procedimento mais comum realizado pela maioria dos profissionais de saúde. Apesar do aumento persistente da carga burocrática associada ao nosso trabalho diário, apesar da crescente utilização das tecnologias de informação e da vulgarização das teleconsultas, o encontro entre o profissional de saúde e o doente continua a ser a base do trabalho clínico.

Para que a relação estabelecida entre ambos, que se pretende terapêutica, possa ter sucesso, é fundamental que qualquer profissional de saúde desenvolva capacidades clínicas de comunicação. Ainda há quem acredite que “se nasce” bom comunicador, mas a verdade é que as competências clínicas de comunicação podem e devem ser aprendidas, praticadas e mantidas. Uma boa comunicação não acontece por acaso. A experiência é fundamental, mas deve ser complementada com aprendizagem constante.

Os principais resultados para os doentes, correlacionados com boas competências clínicas de comunicação dos profissionais de saúde, que surgem profusamente descritos na literatura científica(1), incluem:

  • Maior satisfação com a consulta.
  • Melhoria do sofrimento psicológico e do coping.
  • Melhoria dos sintomas físicos.
  • Maior adesão à terapêutica.
  • Adoção de estilos de vida mais saudáveis.
  • Melhoria dos marcadores biológicos.
  • Redução do tempo de internamento hospitalar.

Permito-me destacar, entre múltiplos artigos acessíveis numa pesquisa bibliográfica sobre este tema, um interessante estudo(2), o qual tem a curiosidade de ter sido realizado na ULS Santo António. O estudo tinha como objetivo avaliar a influência de uma abordagem empática na consulta pré-operatória de enfermagem na ansiedade e nos outcomes clínicos, em doentes submetidos a cirurgia de ambulatório; os resultados demonstraram existir uma correlação estatisticamente significativa entre a intervenção centrada no doente e níveis mais baixos de ansiedade pré-operatória e da dor, uma cicatrização e recuperação pós-operatória mais rápidas e maiores níveis de satisfação com a informação recebida!

Outros resultados clínicos associados a profissionais de saúde com boas capacidades de comunicação são:

  • Mais informação disponível para chegar ao diagnóstico e planear o tratamento.
  • Menor número de questões de última hora, como o "Ah, já agora…" no final da consulta.
  • Maior satisfação com a consulta.
  • Maior facilidade em abordar assuntos delicados.
  • Maior facilidade em criar uma aliança terapêutica, baseada na confiança mútua, no respeito e na compreensão das ideias, sentimentos e valores um do outro.

Por outro lado, estão também descritos alguns resultados clínicos associados a deficientes competências clínicas de comunicação:

  • Maior taxa de abandono de cuidados de saúde.
  • Maior número de processos por negligência e má prática.

Face a estas evidências, torna-se óbvio que as competências clínicas de comunicação devem não só fazer parte do currículo básico de qualquer curso ligado à saúde, mas também ser objeto de formação contínua ao longo das respetivas carreiras profissionais. Na realidade, muitos educadores têm observado que as competências clínicas de comunicação aprendidas precocemente pelos estudantes são “desaprendidas” durante a sua formação posterior.

As principais deficiências, que são relativamente comuns na prática, quando não existem boas competências clínicas de comunicação, estão listadas abaixo:

  • Interrompemos os doentes precocemente, nas fases iniciais do atendimento.
  • Não conseguimos identificar na totalidade e priorizar as preocupações dos doentes.
  • Perdemos as oportunidades de compreender e reconhecer as ideias e os sentimentos dos doentes.
  • Não compreendemos a importância da cultura e da etnia na prestação de cuidados de saúde.
  • Não conseguimos transmitir más notícias de forma clara e empática.
  • Minimizamos o papel dos doentes nos seus cuidados.
  • Subestimamos o nível de literacia em saúde dos doentes.
  • Não negociamos bem as diferenças de opinião com os doentes.
  • Não conseguimos obter adequadamente o consentimento informado dos doentes.

As competências clínicas de comunicação podem e devem ser ensinadas e aprendidas com métodos de ensino adequados. As evidências demonstram que estratégias de ensino específicas melhoram as competências clínicas de comunicação. Os métodos de ensino eficazes incluem prática em pequenos grupos, com observação e feedback, oportunidades para reflexão sobre a experiência enquanto profissional e o reforço e aprofundamento periódicos das competências, ao longo do tempo.

Por este motivo, projetos como o apresentado no artigo(3) publicado nesta mesma secção de Literacia em Saúde, em outubro/2024, “Comunicação em Ambiente Hospitalar”, são muito importantes e devem ser incentivados.

A comunicação, como qualquer outro procedimento em saúde, requer uma revisão e atualização constantes das competências. O desenvolvimento das tecnologias de informação, o advento da inteligência artificial, a comunicação interdisciplinar e a segurança e confidencialidade dos dados constituem desafios enormes para a comunicação. As competências empáticas têm uma aplicação intemporal e intercultural, mas necessitam de se adaptar aos novos desenvolvimentos tecnológicos e às mudanças na sociedade, mantendo os valores humanistas que as atividades em saúde exigem.

 

Referências bibliográficas:

  1. Cardoso, RM (Coord.). (2012). Competências clínicas de comunicação. Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
  2. Pereira L et al. Preoperative anxiety in ambulatory surgery: The impact of an empathic patient-centered approach on psychological and clinical outcomes. Patient Education and Counseling 99 (2016) 733-738.
  3. Moreira S. “Serviço de Humanização - Projeto Comunicação em Ambiente Hospitalar”, in https://defi.ulssa.pt/noticia/servico-de-humanizacao-projeto-comunicacao-em-ambiente-hospitalar , 15/02/2026.